Diferenciado

Por Roger Soyat e Eduardo Martins

“Não basta ganhar, é preciso proporcionar espetáculo ao torcedor que paga o ingresso”.

Será essa a fórmula de sucesso do técnico do Flamengo, Jorge Jesus, o “Mister”?

Com as recentes conquistas da Copa Libertadores da América e do Campeonato Brasileiro, além do título de cidadão honorário da cidade do Rio de Janeiro, o português Jorge Jesus será cada vez mais um case de Liderança a se estudar, aqui no Brasil e no mundo.

Reconhecido mais como Arte do que Ciência, o exercício da Liderança admite uma variedade de modelos a serem seguidos. Se considerarmos modelos de Liderança de expoentes do tema mais antigos ou atuais, como Peter Drucker ou Simon Sinek, apenas para citar alguns, concluiremos que Jorge Jesus apresenta uma poderosa combinação de qualidades que explicam sua Liderança diferenciada.

Aliás, foi justamente dessa forma que o técnico do Flamengo se definiu em entrevista concedida logo após a conquista da Copa Libertadores.

“Sou diferenciado em qualquer lugar”.

Fora de contexto, tal afirmação poderia soar um tanto arrogante. Mas, em se tratando de Jorge Jesus, que reconhece não gostar de falar de si próprio, é uma autorreflexão honesta.

“Um treinador tem de ser um criativo, assim como o jogador” defendeu o técnico em outra entrevista, ao final do 1º turno do Campeonato Brasileiro. Isso é prova da consciência de que Jorge Jesus construiu sua própria fórmula de treinar (ou liderar) um time ao longo do tempo e é fiel a ela. Não é surpresa que uma equipe técnica o acompanhe há alguns anos e rigorosamente implemente um método de trabalho próprio. O resultado do técnico é portanto fruto do trabalho de uma equipe e não da genialidade de uma única pessoa.

A criatividade de um inspira o trabalho de todos.

Esse foi o exemplo de Johan Cruyff, o lendário jogador e técnico holandês (de quem Jorge Jesus admite ser seguidor) reconhecido pelo seu talento e resultados dentro e fora de campo, cuja lembrança é principalmente associada à seleção que impressionou o mundo em 1974, a Laranja Mecânica. Sua genialidade também estava a serviço da coletividade.

Em um país onde nós, torcedores, teimamos focar no talento individual, a expressão “servir os outros” pode soar estranha no futebol. Mas, é essa a principal motivação do técnico Jorge Jesus, os jogadores. Ele está lá para servi-los, para extrair o máximo de seu potencial e levá-los a patamares nunca antes imaginados.

Quem acompanhou o time do Flamengo antes e depois da chegada do técnico, com certeza ficou admirado de ver a evolução da performance de vários jogadores.

Damos nosso melhor quando sentimos confiança.

Isso vale para os Esportes e também para os Negócios. A confiança, essa qualidade difícil de se produzir em ambientes de trabalho, e característica de equipes de alta performance, nasce a partir de um conjunto de regras claras e papéis bem definidos.

É sabido que Jorge Jesus tem algumas regras rígidas de convivência, como a proibição de uso de celulares nas refeições e seu rigor em relação à pontualidade. O que será que isso tem a ver com a performance em campo? Tudo! A experiência da convivência que incentiva o respeito mútuo, favorece a cumplicidade, transborda para dentro das quatro linhas, com todos os seus benefícios. E quando há “consciência profissional e uma paixão grande por treinar e trabalhar”, como apontou Jorge Jesus na equipe do Flamengo assim que a assumiu, as condições favoráveis para alta performance estão instaladas.

Com papéis bem definidos e aceitos por cada membro do conjunto (técnico e jogadores), as cobranças são mais bem recebidas, o feedback é melhor assimilado, se sacrifica vaidade em prol do resultado coletivo.

Quem assiste Jorge Jesus à beira do campo, com seu estilo enérgico, tem a clara percepção de que ele joga junto do time. Nessa posição privilegiada, de quem acompanha a dinâmica do time de fora, é ele quem modula a intensidade com dois objetivos claros, um reforçando o outro:

  1. Não deixar que o time perca concentração nem foco
  2. Ganhar e produzir espetáculo

Um olhar desatento pode achar que o técnico se excede na interferência do time durante o jogo. Essa supervisão constante tem nome no mundo corporativo, “micromanagement”. O que existe por outro lado é um compromisso ferrenho com o esquema tático (O QUÊ), deixando os jogadores livres para sua execução (O COMO). Por mais que os treinos visem deixar o time no piloto automático para cumprimento do “O QUÊ”, a liderança do técnico intervém no “COMO” durante o jogo para o êxito da estratégia.

Perguntado sobre o estilo de jogo vertical do Flamengo, sempre buscando o gol, Jorge Jesus dá crédito ao “esquema tático que obriga os jogadores a tocar pra frente”.

Os torcedores agradecem! Afinal, são eles a quem os jogadores estão “servindo” dentro de campo. E eles querem gol, de preferência, muitos gols.

Essa conexão do técnico com o time claramente transbordou para a arquibancada. Ou o que “jogaremos juntos” significa senão técnico + time + torcida movidos pelo mesmo objetivo: VENCER, VENCER, VENCER?

Há ainda dois fatores marcantes na Liderança diferenciada de Jorge Jesus: Paixão e Visão. Apaixonado pelo futebol desde pequeno, Jorge Jesus faz aquilo que ama. Ele é um estudioso do futebol, sempre antenado no que acontece em campo pelo mundo afora. Nessa condição não se medem esforços para se conhecer mais, pesquisar mais, experimentar mais sobre a profissão escolhida. A aprendizagem é contínua. A criatividade tem fonte de inspiração que não se esgota.

E “se futebol não é ciência exata, mas a ciência de cada um”, como diz o próprio técnico, qual será o limite de sua prática? Aquele imposto por cada um!

É aí que faz a diferença a Visão. É ela que cria a tensão saudável, o estresse positivo para a superação dos próprios limites.

Jorge Jesus chegou ao Flamengo com a clara Visão (ou convicção, como ele mesmo disse em entrevista) de que ia chegar à Final da Libertadores e ganhar, e de que teria a chance de vencer o Campeonato Brasileiro.

Terão sido apenas palavras bonitas “eu sonhei e visualizei o título da Libertadores” do camisa 10, Diego Ribas, ou um exercício de visualização consciente e regularmente repetido?

Terá a Visão de Jorge Jesus se transformado na Visão de todos? A imagem dos três capitães, os Diegos e Everton, levantando as taças da Libertadores e do Campeonato Brasileiro reforçam a Visão de um Sonho Coletivo alcançado, a coroação do empenho de todo time.

Criatividade, Trabalho em Equipe, Disciplina, Confiança, Espírito de Servir, Paixão e Visão são qualidades identificadas no estilo de Liderança diferenciada de Jorge Jesus.

Essa é a “ciência” de Liderança do treinador português, que por ocasião da cerimônia em que recebeu o título de cidadão honorário da cidade do Rio de Janeiro, foi assim reconhecida pelo Presidente do Flamengo, Rodolfo Landim:

“Além de um profundo conhecimento da profissão, o mais importante é a atitude e vitalidade que ele tem”.

O mês de Novembro de 2019 será um mês para todo rubro-negro e amante do bom futebol lembrar para sempre.

Uma Liderança diferenciada pode gerar resultados extraordinários dentro de campo. E também fora dele! Tudo começa com uma Visão.

Qual é a Visão que você está perseguindo?

Gema-TW, transformando potencial em resultados.

(*) Roger Soyat é Executivo e Anjo rubro-negro.