Justiça

– Isso não é justo! Talvez seja essa a frase que mais escuto da minha caçula de 4 anos quando as coisas não saem exatamente como ela quer: a medida do suco no seu copo, a quantidade de lápis de cor no estojo que recebe para desenhar, o livro de estórias que leio em primeiro lugar.

Ela tem clara noção dos próprios direitos. E dos direitos dos outros? Ou no caso acima, da irmã? Nem tanto! Mas, nada grave! Seu caráter está em formação!

Quem leu nosso último texto sobre autodomínio aprendeu que os filósofos gregos já recomendavam a prática das virtudes desde a infância.

A justiça, virtude que goza da melhor estima entre as virtudes cardeais, pressupõe a vitória sobre si mesmo, uma disposição sobre a vontade.

Foi Platão quem colocou às claras este aspecto fundamental desta virtude, sustentando que para um comportamento ser marcado pela justiça é necessário que a vontade se imponha sobre os instintos e desejos, e exerça sobre eles um permanente domínio.

O desejo por bens, poder e honra é inerente à natureza humana. Qual será sua justa medida? Essa pergunta já foi com resposta!

A idéia da justiça se apóia no princípio de que todos os seres humanos são iguais. Portanto, é justo que a cada um deles sejam atribuídos os mesmos direitos e os mesmos deveres.

Em uma definição mais simples, podemos dizer que a justiça é o hábito de dar a cada um o que é seu. Mas, por que será que há tantas injustiças? Desequilíbrio nos desejos!

Uma ambição desmedida faz com que a pessoa enxergue além do que é seu de direito, ficando cega para o que é direito do outro (ou dos outros). Não estará aqui a raiz da corrupção?

Quando todos os holofotes precisam estar voltados para si mesma, não estará a pessoa cega pelo desejo desenfreado de atenção e reconhecimento? E se os holofotes se voltarem para outra pessoa, será isto motivo para inveja?

Se o homem não tiver consciência dos próprios direitos e dos diretos dos outros, a justiça será sempre uma obra incompleta.

Como então haver justiça se o próprio homem não sabe onde termina o seu direito e começa o do outro? Para isto, existem as leis.

E como nos é cara a justiça que alcançamos através de leis bem escritas!

Faz com que respeitemos mutuamente os nossos direitos, regula as relações particulares dos indivíduos entre si, de cada um com a sociedade e da sociedade com os indivíduos. Coloca ordem em todas as coisas e, consequentemente, leva consigo a paz e o bem-estar de todos*.

Opus justitiae, pax. A obra da justiça é a paz!

É de se esperar que os líderes tenham um papel fundamental nessa obra, já que concebem o seu trabalho como um serviço a todos.

Peter Drucker afirma que “a responsabilidade dos chefes consiste em fazerem do bem comum seu interesse particular. Isso requer um trabalho intenso, grandes dotes de direção, um profundo sentido de responsabilidade e aspirações altas”. E continua: “mas, se os chefes desejam ser o grupo líder da sociedade, esta regra deve ser para eles o ponto de referência”.

Se esta regra vale para líderes empresariais, o que dizer sobre líderes políticos, cuja função existe para o serviço à sociedade, para o cuidado e a administração do bem comum?

Nas eleições que se encerraram no último final de semana, podemos concordar que a participação do brasileiro na discussão política nunca esteve tão alta.

Esta é de fato uma conquista a ser celebrada, apesar de termos muito a aprender sobre aceitar posições divergentes das nossas. Uns dirão: isso é reflexo de uma jovem democracia!

Mas, a virtude da justiça é de longa data! Se nos empenharmos nela, estaremos contribuindo para relações harmoniosas em nossas famílias, nos círculos de convívio social, nas empresas, nos lugares que vivemos, na nossa cidade, em última instância, no nosso país.

A justiça é um direito de cada um, e um dever para com o outro.

Seja sua liderança justa onde você estiver. Ordem, paz e progresso serão heranças naturais. Nossas crianças agradecem!

Gema – TW, transformando potencial em resultados.

(*) Do livro “As Virtudes Cardeais” de Livio Fanzaga