Quem é seu Mentor?

Faz pouco mais de uma semana que vimos partir precocemente “alguém que deu tudo de si para ser sua melhor versão”. Talvez seria mais simples iniciar esse texto dizendo que nos deixou um dos melhores jogadores de basquete de todos os tempos. Mas, escolhi fazer como ele mesmo, Kobe Bryant, disse em uma entrevista no passado como gostaria de ser lembrado.

Kobe Bryant viveu sob uma mentalidade de vida clara. Sua base: a autoconfiança. E seu pai foi responsável por criar terreno fértil para essa mentalidade florescer no filho. Na sua primeira competição de basquete aos 11 anos, ao não marcar nenhum ponto, escutou do seu pai: “Não me importa se marcará 0 ou 60 pontos, meu amor por você será sempre o mesmo”.

Há uma valiosa lição para se tirar da influência do pai na vida de Kobe Bryant que podemos extrapolar além da relação pai-filho. É a relação entre duas pessoas no processo de aprendizagem.

Escuta-se cada vez mais que a habilidade mais valorizada no mundo corporativo é a de “aprender a aprender”. De fato, o ritmo acelerado de introdução de novas tecnologias, o volume e a velocidade do compartilhamento de informações, a complexidade dos novos desafios de um mundo interconectado tornam a aprendizagem contínua uma competência necessária para quem quer continuar avançando em sua carreira.

Nesse “maravilhoso mundo novo” há uma prática de longa data que talvez estejamos subutilizando, a relação “mestre-aprendiz”. Era assim que as profissões eram ensinadas antes da Revolução Industrial; via convivência com um mestre, para aprender seu ofício.

Sem a profusão de recursos informacionais disponíveis de nossa época, há alguns séculos atrás, determinado conhecimento/know-how era detido por uma pessoa, o mestre. E era dele que se deveria aprender diretamente.

Uma relação “mestre-aprendiz” soa estranha em nossos tempos quando tanta informação está a um clique de distância. Por que aprender de outra pessoa, se posso fazê-lo eu mesmo, na hora, no local, no tempo mais conveniente? Por que me expor à avaliação de outra pessoa, deixando-a conhecer meus pontos frágeis, podendo falhar na sua frente, não parecer competente?

Não é preciso ir tão longe para trazer uma imagem de mestre-aprendiz familiar para muitos dos leitores: Daniel San e Sr. Miyagi. No filme Karate Kid, como as habilidades do jovem praticante foram forjadas demonstra a força de uma relação entre duas pessoas em prol do aprendizado. Isso pode parecer muita ficção para os dias atuais. Afinal, as fontes de conhecimento e aprendizado são muitas para “colocarmos todos os ovos em uma única cesta”.

Essa é justamente a riqueza do tempo que vivemos que estamos deixando escapulir pela dificuldade de reconhecer no outro um “facilitador” para nosso desenvolvimento.

Em lutas marciais, o aluno mais novo, COHAI, se refere ao praticante mais experiente como SENPAI. Na forma de tratamento já está embutida uma relação de aprendizado. E de fato acontece porque o COHAI está aberto aquilo que o SENPAI tem para falar, porque reconhece uma preocupação genuína pelo seu aperfeiçoamento.

De quem estamos deixando de aprender em nosso dia-a-dia? Será por pura distração ou por não sermos receptivos a um ponto de vista diferente? Em que nível estaria nosso aprendizado de, por exemplo, uma competência de interação interpessoal (ex. uso de empatia) se estivéssemos abertos ao feedback de pessoas que confiamos, interessadas em nosso desenvolvimento?

Arrisco a dizer que é muito mais difícil aprender Liderança do que a jogar basquete. Uso o próprio exemplo de Kobe Bryant. Se ele iniciou sua carreira com o objetivo de ser um dos melhores jogadores de basquete de todos os tempos, esse objetivo se atualizou no meio da sua trajetória para “inspirar seus companheiros a serem os melhores jogadores que pudessem ser”.

Quem conhece a jornada do herói (imagem abaixo) entende que um enredo de vida não pode terminar no ato III – passo 12, se há mais anos de vida pela frente. A vida precisa constantemente de um sentido, um propósito. Depois que chegou no seu topo, Kobe estava empenhado a levar outros para um topo, o de cada um, a melhor versão de vida que cada um aspira para si.

E ele aprendeu pela própria experiência que para percorrer a jornada do herói, o passo 4 é decisivo! Se ofereceu assim naturalmente como “mentor” para seus companheiros. Tinha potencial para muito mais!

Jornada do Herói

Infelizmente, aquele helicóptero caiu antes de chegar ao seu destino final.  Lá estavam centenas de crianças/adolescentes ansiosas para escutar Kobe Bryant.

Quantos “kobes” de 11 anos estavam aguardando uma fala que poderia fazer toda diferença na sua trajetória de vida? Independente de quantos pontos marcariam nos dias de treinamento a frente, zero ou vários, Kobe diria para que perseguissem seus sonhos com determinação, os incentivaria a serem os melhores que pudessem ser. Seu exemplo era seu melhor discurso!

Os heróis de nosso tempo vêm na forma de jogadores de basquete mas também de pais de família, mães empreendedoras, executivos experientes, profissionais dedicados. Não se enganem com os seus disfarces! Em matéria de Liderança, a Excelência se manifesta em muitos papéis.

“20 anos de Excelência” foram as palavras que Magic Johnson usou para descrever Kobe Bryant no seu último jogo da carreira. O que gostaríamos que fosse dito ao final das nossas?

Quais são os “facilitadores”, “mestres”, “mentores” que estamos ignorando em nossas vidas?  Que experiência estamos deixando de acessar por pura distração ou por não nos abrirmos a um ponto de vista diferente?

Esse pode ser o fator decisivo na busca por Excelência.

Gema-TW, transformamos potencial em resultados.